sábado, 1 de setembro de 2012

PSICO-FILOSOFICAMENTE FALANDO


Formulei teorias de vida,
criei conceitos e formas,
fiz silogismos lógicos de vivência
e sorri à minha filosofia de futuro...
Estavam criadas todas as condições
para uma existência sem falhas,
onde o conceito da razão,
o conceito da moral,
o conceito do conhecimento
se enquadravam num todo uniformizado.
Só esqueci um pormenor,
(pormenor, aliás, assaz insignificante
para quem fez todos os cálculos
com prova real e em computador).
Esqueci uma parte da psicologia humana,
deixei passar em branco os graus de consciência
e as pressões sociais na vivência de cada um.
E ao colocar em prática o meu sistema filosófico
ruiu a filosofia que criei para a vida...,
porque tem três etapas diferenciadas
a minha consciência psicológica:
Se o consciente aceita a filosofia,
o inconsciente adormecido
traz ao subconsciente
toda a verdade recalcada pela pressão social,
todas as angústias e incertezas não admitidas,
todo um mundo onde
vida -razão e vida -sentimento
ora se confundem, ora se confrontam...
Pergunto agora:

-Criei filosofia de vida
numa vida psicológica
ou anulei conceitos de sabedoria
num psíquico conturbado?

(escrito em 15/05/1986)

De Maria La-Salete Sá

POEMA TRIPARTIDO

HOJE

Hoje... a Lete teve uma hora de desânimo...
...e chorou...
Hoje...a Lete interpretou à letra palavras soltas que ouviu...
...e estremeceu...
Hoje...a Lete pensou em coisas tristes...
...e sofreu...

Hoje... a Lete recordou que não é só...
...e sorriu...
Hoje...a Lete reparou que há vida...
...e viveu...

Hoje...
A Lete já é a Lete
Que sorri,
Que canta,
Que vive,
Enfim...a Lete que AMA!

ONTEM

Ontem – passado morto,
Ilusão desfeita,
Amargura sepultada...

Ontem – saudade feliz
De um Verão acabado
Cheio de sol e calor...

Ontem – alegria do mendigo
Recebendo esmola
De corações bons e serenos...

Ontem – começo de podridão,
De drogas e guerras
Que avassalam o mundo...

Ontem – sonhos de paz,
De fraternidade e união
Desta terra triste que se guerreia
Constantemente... desde...
Ontem...

Ontem...passado morto
Que ressuscita hora após hora
Para nos conduzir ao infortúnio...,
À miséria...

É passado...é ONTEM...,
Mas vive ainda...

É o ONTEM
De hoje,
De amanhã...
De sempre...

AMANHÃ

Amanhã será o ressurgir de um novo dia,
O desabrochar de nova flor,
O desfalecer de corações que já viveram...

AMANHÃ! Quanta esperança.
Quanta ânsia pela paz e alegria
Que...
Virá no amanhã... próximo
Remoto, inacessível...

Mas...AMANHÃ
Há uma vida para viver,
Um AMANHÃ para atingir,
Uma esperança para a VIDA!

Há um AMANHÃ...

De Maria La-Salete Sá

LETRAS MENTIROSAS

O pai abecedário sempre foi muito mandão. Tão mandão que todos os dias mandava, não só mandava, como ordenava às letras que não saíssem do seu lugar.
E elas, coitadinhas, lá ficavam, sempre à espera que o pai as juntasse, porque letras separadas eram tristes, não faziam sílabas, quanto mais palavras...E elas queriam FALAR!
Mas...havia algumas tão arrogantes, tão arrogantes, que até eram mentirosas, entre elas o C.
E foi esta mentirosa que consigo arrastou algumas vogais para a brincadeira no jardim, durante uns momentos de distração do pai alfabeto.
“Venham cá vogais...Eu quero três para brincar.”, chamou o C.
E o A,E,I,O,U brigaram entre si, pois todas queriam brincar. Então o C não teve outro remédio senão lançar os dados e tirar à sorte, tendo sido escolhidas o A, o O e o U, que, sem dar cavaco a ninguém, se escapuliram para a brincadeira.
O C deu a mão ao A, que muito pronto disse:” Nós estamos CÁ!”
Mas o C, ao colocar a cedilha logo replicou:” Mas eu posso usar um rabinho, não vês?”
“E para quê?” – pergunta o A.
“Assim brincamos às malandrices e eu sou um Ç (S) e juntos dizemos ÇA.
“Ah!...Mas assim és um mentiroso!
“Não me importo. E queres ver o que faço com o U?”
“Quero.”- responde o A”
“Vem cá U, dá-me a mão. E olha, QUE FEIO!, somos um CU.
Então, C de mão dada com A é CA, Ç de mão dada com A é ÇA.
E diz o U:”Mas falta o O.
“Estou aqui! Também vou brincar às mentiras! Às vezes também sou U como TU.”
“Não faz mal”, – diz o U – brinquemos ao Carnaval e ninguém leva a mal!”
Reaparece o C – “Anda cá, O e dá-me a tua mão. Nós somos CO... e se formos dois... Seremos COCÓ?
“ Que porcaria!”- diz o Ç – “Vem comigo e ficamos um ÇO (SÓ)”
A meio desta brincadeira ouve-se o vozeirão do pai alfabeto:
“Onde se meteram as letras que faltam aqui?! Ah!, se as apanho...”
E as letras fogem a correr, atrapalhadas, misturadas, mas a gritar:
CA ÇA
CO ÇO
CU ÇU

De Maria La-Salete Sá


O TEU OLHAR

É assim o teu olhar:
sol escondido,
nuvem a espreitar,
lua cheia,
estrela polar!
Sorri o amanhecer,
goteja o acordar,
espelha o anoitecer,
norteia o avançar...

É assim o teu olhar!



(05/07/86 22h 49m)

De Maria La-Salete Sá


PALAVRA AMOR

Chamavas-te multidão,
ser solitário que não consegui descobrir.
Chamavas-te ilusão,
realidade que não sei esquecer...
Chamas-te presença
nesta ausência de ti em que estou.
Estou. Não estou. Tu estás.
Na rua, no bar, na festa...
Não te vejo. Sinto-te.
No ar. no perfume, no frio, no calor...
És. No mundo onde circulo
a palavra AMOR.

Por isso... ser solitário, multidão,
realidade, ilusão,
ausência, presença,
se, não ser,
estar, não estar,
mundo para amar...

Só tu em meu coração.


(09/12/1987 01h 36m)

De Maria La-Salete Sá


SOU FELIZ

Como casca de noz
vogando
nas ondas do mar,
feliz, contente
eu vivo a cantar.
Como pássaro alegre
voando
livre no ar
também sou assim
feliz,
por saber amar.
como fada luzente
cantando
pelo mundo além
quero ser alegre,
ajudar alguém.
Nas horas boas ou más,
em todo o dia,
tentarei vivê-las
e oferecê-las
com alegria.
Assim alegre
quero viver
contente
como a gente
que quer Ser e Crescer.

De Maria La-Salete Sá
(escrito em 15/10/1968, Colégio de Nossa Senhora da Bonança)

A ALGUÉM QUE JÁ PARTIU

Como eras boa avozinha!
Tenho no pensamento a tua imagem,
Essa bendita miragem
Que julgava ser só minha!

Deus pediu-te, tu aceitaste
O caminho que te estava traçado...
Como eu queria que tivesses ficado,
Mas sempre comigo ficaste.

Partiste, é certo... Acredito que sim,
Mas não posso deixar de te lembrar,
Embora tenhas ido, continuo a amar
Alguém que já fez parte de mim.

Oh! Se fosse hoje, como seria diferente...
De maneira alguma te arreliaria,
Beijar-te.ia e sempre diria
O que só agora minha alma compreende.

Como eras paciente, avozinha!
Quanto carinho tinha a tua voz!
Tenho a certeza de que não há avós
Mais carinhosas do que a minha!

Agora, lá no Céu, reza por nós,
Pede a Deus pela humanidade,
Que hoje tem tanta falsidade
E que haja, como tu, mais avós.

Lembro-me das tuas historinhas,
Das de fadas, que gostava de ouvir,
De todas que ouvia a sorrir
E pedia: "Só mais uma, avozinha..."

Oh! Não calculava o bem que eras
E só agora posso compreender,
Hoje... que não te posso ter,
Me lembro quão boa tu eras!

Com saudade eu peço perdão
A esse alguém que já partiu,
Alguém que nunca mais se viu,
Mas que ficou no meu coração.

(A minha avó paterna deixou-nos em Abril de 1974, quando eu tinha 11 anos, escrevi o poema em 1976.)

De Maria La-Salete Sá