domingo, 29 de setembro de 2013

TEMPESTADE D’ALMA



Se a raiva que se instalou neste espírito
fosse passível de incendiar-se
com ela explodiria o universo,
tal guerra das estrelas em colisão.

Se esta fúria que surgiu não sei de onde
conseguisse soprar a sua força,
tornados, tsunamis e ciclones
sacudiriam o planeta.

Mas esta fúria, esta raiva,
esta revolta consumada
apenas eclodem no meu íntimo
e toda eu sou…
…um complexo de galáxias em explosão.

De Maria La-Salete Sá ( agosto de 1989)


GOSTO ACRE



Hoje a vida tem um gosto acre
E um cheiro nauseabundo.
São ecos vindos doutros mundos
Que me contrariam a razão,
são subtilezas que se sentem e vivem
mas que não podem ser provadas,
são certezas
de certezas improvadas…

Hoje a vida tem um gosto acre
que me chega ao coração,
um cheiro nauseabundo
que reclama interiorização,
mas o meu consciente cansado
quer fugir ao designado,
quer dormir, ficar parado
na quietude da não-aceitação.

Hoje estou só. Desolada e incompreendida,
queria ser só matéria vegetativa
sem pensar no meu “eu infinito”.
Debato-me com o espírito
que reclama a compreensão
mas eu, a mulher dos sentidos
queria abolir (por momentos) o dever
da caridade e abnegação…

De Maria La-Salete Sá (18/02/1989  00:40h)



QUE DESABE…




Que a atmosfera pesada e quente
desta noite de verão,
prestes a abrir-se sobre mim,
desabe em todo o universo.
Queria sentir-me arrancada deste sufoco,
acossada pelo uivo da tempestade furiosa
e alagada pela chuva que não vem…
Queria…
Queria que esta atmosfera pesada e quente
ribombe e rebente sobre mim a sua fúria…

Talvez, então, eu também consiga
atirar para o mundo
o temporal que trago cá dentro.

De Maria La-Salete Sá (22/07/1990  01:31h)


INADAPTADA



Parada no tempo sem tempo em que estou
questiono os porquês desta razão
sem resposta racional...
Não há quês nem senãos,
apenas o desejo da projeção
do meu espírito etéreo
sem barreiras, sem fronteiras, sem parâmetros dimensionais.
Agora sou maior do que o espaço universal
ou mais ínfima do que o infinitésimo do mínimo.
Sou o tudo e sou o nada.
Contraponho-me e contradigo-me
Na correria louca em busca do sonho…
Ele lá… eu aqui.
De nada me serve, pois, a grandeza ultra dimensional
nem a pequenez infinitesimal…
Ser o tudo ou ser o nada – razão irracional -,
utopia-contradição, vontade anulada,
(o tudo ou o nada??!...)
Não! Cercam- se-me as fileiras
dos meus cavalos alados,
grito-me bem de dentro
que apenas sou, sem tudo, sem nada,
mulher incongruente, mas consciente
duma vida inadaptada.


De Maria La-Salete Sá (22/07/1990  01:25h)

PIEDOSA MENTIRA



Pressinto que me afundo de novo em incertezas...
Começa a desmoronar-se a estrutura do meu pedestal,
do pedestal onde me ergui
alta e inflexível,
dura que nem uma rocha...

O cimento armado
em que me alicercei
começa a diluir-se
no paradoxo deste sentir incongruente...
E, a pouco e pouco,
sinto-me reduzida a nada
no mundo das emoções.

Já não sou a mulher super-segura de si mesma,
a auto-suficiente,
sou a criança carente
perdida no abismo
em busca duma mão amiga,
dum carinho,dum afago...
Sou a fragilizada
na vulnerabilidade inconstante do ser...

A solidão dum mundo inteiro
pesa sobre os meus ombros
e uma asfixia crescente
desperta-me cada vez mais
a vontade de gritar contra o silêncio...

E ri-se de mim a lua! Lá fora... pequena e insignificante
no seu quarto crescente...,
dentes abertos  num sorriso de desdém
como quem apregoa
a sua influência cíclica na vida de alguém!
Hoje esse alguém sou eu.
Sou eu que caí do astro-rei,
caí mais baixo do que o satélite mais ínfimo...
nem meteoro fui, apenas em areia me tornei...
...fina e frágil...

Mas não pposso  permanecer assim!
Com areia (e cimento) se constroem torres e castelos,
Se erguem fortalezas,
Com areia (e cimento)
Se fabricam cidades, se fazem mundos.

Eu hei de voltar a crescer,
voltar a vencer,
voltar a ser!

Talvez amanhã entre de novo em derrocada,
mas preciso de força para erguer-me AGORA...
Cimento e lágrimas darão consistência de rocha
à areia que hoje sou.
Urge reconstruir-me, capacitar-me e convencer-me
que as negações às emoções primárias
não são mais do que idealizações
de pessoas fracas... insignificantes...

E nesta insignificância de mentira piedosa
reestruturo a fortificação,
restauro a fortaleza
do meu castelo de cristal...

... e enquanto não surgir outro temporal/emocional
Ficar-me-ei no meu pedestal.


De Maria La-Salete Sá


Maio de 1990

CARENTE




Penso em ti
e em ti
e em ti
e em ti... e...
Penso em vós,
penso em mim.

Estou só.

Feliz... e carente...

Feliz na amizade,
na vida,
na luta pela procura,
na fé e na esperança do Ser...

Carente
de uma forma de viver
em entrega de mulher...

Carente
de um toque de magia,
de um beijo profundo...

Penso em vós, em mim.
Abre-se a minha alma,
espreita a ansiedade,
nasce o sonho,
a ilusão,
a quimera.

Estou só. Tenho-vos a todos,
não tenho ninguém.
Quero-vos. Sou vossa.
Amo-vos. Sou de todos vós,
não sou de ninguém...

E... nesta ausência
nasce a minha carência...


De Maria La-Salete Sá (04/07/1991 – 09:55 h)



AI TEMPO QUE NÃO TEM TEMPO




Dirão que estou ausente,
desligada,
indiferente,
dirão!
Mas não, não estou!

Estou presente,
bem presente,
trazendo comigo
os amigos
na alma
e no coração...

E pode parecer até
bem real esta aparência
pode muito bem parecer,
mas não é...
Apenas partidas do tempo,
do tempo
que me rouba tempo
do tempo
que se diz tempo,
do tempo
que tempo não tem,
do tempo
que tempo não é...

Dirão que estou ausente,
desligada,
indiferente,
dirão!
Mas não, não estou!


De Maria La-Salete Sá (29/08/13 - 09:01h)