domingo, 29 de setembro de 2013

PERCURSOS…



Eu fui obra traçada do destino
e sou a linha constante da vida.
Fui escrava, algures, em tempo indeterminado,
açoitada pelas mãos e ordens do senhor poderoso.
Fui homem vil, duma tirania incontestável,
talvez lutando em prol da fé na Guerra Santa.
Combati homens como se foram feras,
tiranizei e reduzi a répteis
pessoas de bom coração.
Fui leal servidor, fui justiça e tirania,
fui homem e mulher
em tempos e locais ilimitados e inexplícitos.
Hoje sou mulher sem medo de fantasmas nem de dragões
a cumprir este carma atribulado
a que me impus.

De  Maria La-Salete Sá (12/12/1988)



FUGA DE MIM




Hoje o meu  espírito tem necessidade de evasão,
de procurar refúgio noutras galáxias,
noutros povos, noutros seres,
noutras civilizações.
Hoje quero progredir para o além mundo
ou para o prefácio desta existência.
Hoje quero fugir deste corpo,
deambular apenas presa pelo perispírito
e entrar no Cosmos,
no povoamento de seres informes
mas reais,
daqueles que são mais do que mais,
que são os próprios, os Eus,
como em espírito eu também sou Eu.
Quero deixar a Terra,
esvair-me de mim mesma,
deste ser material que sou,
deixar de ser matéria
e ser o nada,
porque este nada é o tudo.
Hoje quero ir além, ultrapassar limites e fronteiras,
fluir entre barreiras
e encontrar-te e contigo poder falar…

… contigo que és Eu.


De Maria La-Salete Sá (21/04/1989  00:01h)






Porque vives eternamente camuflado
de bem casado
e bom cidadão?
Porque te temes mais do que temes o que julgas temer?
Porque te consideras superpotente,
se essa superpotência
não passa de uma alienação de ti mesmo?
Porquê tanto pavor em enfrentares a tua realidade?
Não vês que estás a fragmentar a tua personalidade?
É altura de te cimentares,
de criares as tuas próprias estruturas
e os teus alicerces,
é hora de te olhares e de te reconheceres,
de te interrogares para saber
e compreender que já é tempo de crescer.

Se olhares bem – e de olhar bem atento –
para dentro de ti,
para a tua essência, para a tua alma,
poderás descobrir em quantos fragmentos te tornaste,
descobrir que o teu embrião não cresceu por igual.

Vê o “tu” que está adulto e o “tu” que se recusa a crescer,
Vê!


De Maria La-Salete Sá ( setembro de 1988)




TEMPESTADE D’ALMA



Se a raiva que se instalou neste espírito
fosse passível de incendiar-se
com ela explodiria o universo,
tal guerra das estrelas em colisão.

Se esta fúria que surgiu não sei de onde
conseguisse soprar a sua força,
tornados, tsunamis e ciclones
sacudiriam o planeta.

Mas esta fúria, esta raiva,
esta revolta consumada
apenas eclodem no meu íntimo
e toda eu sou…
…um complexo de galáxias em explosão.

De Maria La-Salete Sá ( agosto de 1989)


GOSTO ACRE



Hoje a vida tem um gosto acre
E um cheiro nauseabundo.
São ecos vindos doutros mundos
Que me contrariam a razão,
são subtilezas que se sentem e vivem
mas que não podem ser provadas,
são certezas
de certezas improvadas…

Hoje a vida tem um gosto acre
que me chega ao coração,
um cheiro nauseabundo
que reclama interiorização,
mas o meu consciente cansado
quer fugir ao designado,
quer dormir, ficar parado
na quietude da não-aceitação.

Hoje estou só. Desolada e incompreendida,
queria ser só matéria vegetativa
sem pensar no meu “eu infinito”.
Debato-me com o espírito
que reclama a compreensão
mas eu, a mulher dos sentidos
queria abolir (por momentos) o dever
da caridade e abnegação…

De Maria La-Salete Sá (18/02/1989  00:40h)



QUE DESABE…




Que a atmosfera pesada e quente
desta noite de verão,
prestes a abrir-se sobre mim,
desabe em todo o universo.
Queria sentir-me arrancada deste sufoco,
acossada pelo uivo da tempestade furiosa
e alagada pela chuva que não vem…
Queria…
Queria que esta atmosfera pesada e quente
ribombe e rebente sobre mim a sua fúria…

Talvez, então, eu também consiga
atirar para o mundo
o temporal que trago cá dentro.

De Maria La-Salete Sá (22/07/1990  01:31h)


INADAPTADA



Parada no tempo sem tempo em que estou
questiono os porquês desta razão
sem resposta racional...
Não há quês nem senãos,
apenas o desejo da projeção
do meu espírito etéreo
sem barreiras, sem fronteiras, sem parâmetros dimensionais.
Agora sou maior do que o espaço universal
ou mais ínfima do que o infinitésimo do mínimo.
Sou o tudo e sou o nada.
Contraponho-me e contradigo-me
Na correria louca em busca do sonho…
Ele lá… eu aqui.
De nada me serve, pois, a grandeza ultra dimensional
nem a pequenez infinitesimal…
Ser o tudo ou ser o nada – razão irracional -,
utopia-contradição, vontade anulada,
(o tudo ou o nada??!...)
Não! Cercam- se-me as fileiras
dos meus cavalos alados,
grito-me bem de dentro
que apenas sou, sem tudo, sem nada,
mulher incongruente, mas consciente
duma vida inadaptada.


De Maria La-Salete Sá (22/07/1990  01:25h)