domingo, 29 de setembro de 2013

DESNORTE…



Como me sinto desnorteada
no meio de tanta injustiça!
Como me sinto insignificante
longe de ti, amor!
Como me sinto tão só
por ver perdida uma recordação tão amada!
Como me sinto tão triste
por não te ter a participar da minha amargura!
Sou tão pequena
nesta imensidão humana
e necessito de ti, amor
para não sucumbir,
para crescer, viver e ainda ser feliz…

De Maria La-Salete Sá (21/06/1976  quatro meses após o falecimento da minha filha…)


PARTIDAS DA VIDA…



Ah! Vida! Porque és assim?
Porque me obrigas a ser como sou?
Porque obrigas o justo e o inocente
a pagar as faltas que não lhes pertencem?
Ah!, como tu às vezes és tão cruel
apesar de tão bela!---
Como tu pregas partidas
mesmo sendo meiga!...
Ah! Se eu pudesse mudar!
Se eu pudesse construir-te toda e sempre bela…
mas tu não deixas…
A cada esquina, a cada dia,
no momento mais inesperado
resolves pregar-nos uma partida!
Mas és bela apesar de tudo,
e, apesar de dura, por vezes,
eu adoro-te.
Adoro-te, embora também sinta
(como todos sentem)
o ensejo de me evadir,
o ensejo de brincar contigo
como tu brincas connosco!
Mas também sou consciente,
mesmo fracassando,
tento procurar o teu sorriso,
mesmo com raiva e desejo de te mandar à merda,
tento seguir de cabeça erguida
e rir-me de ti,
rir-me de mim,
rir para ti,
minha vida cruel e adorada.
Eu amo-te, vida!
Amo-te porque em ti,
de ti faz parte tudo o que tenho,
tudo o que sou…
Em ti vivo,
em ti confio,
em ti encontro tudo o que há de bom…
Mas também me dás o menos bom,
apesar de me mostrares e dares maravilhas…
E é por isso que te quero,
mesmo com o teu mais sombrio semblante.
Quero-te vida, ensina-me sempre
a ver a luz onde tudo parece um mundo de trevas,
não me deixes presa na escuridão
porque assim,
mesmo vivente,
morreria…

De Maria La-Salete Sá  (21/06/1976 fez quatro meses que perdi a minha filha…)


PSICOGRAFADO?! NÃO SEI…



Quero-te.
Não só te desejo, mas amo-te.
E sei que é impossível este amor, este querer
quero, sobretudo, retomar a tua amizade

Continua amargurada a minha vida,
oprimido e instável,
desventurado pelo destino,
perdido na vida…

Gostava de falar contigo
como nos velhos tempos.

De Maria La-Salete Sá

(Não tem data este poema, no pedaço de papel onde o escrevi apenas havia a seguinte nota: Mensagem telepática? telecaneta?

Mas lembro-me de o ter escrito, de o ter sentido como que “a sair do nada”, como se uma força desconhecida me impulsionasse a escrevê-lo, sem que saiba “quem mo ditou”) 

TEIMOSA LETARGIA…




Está obscurecido o dia
E um letargo teimoso se encostou a mim…
Sonolenta me debato
entre o reagir
ou cair na letargia.
O aqui e o agora reclamam que devo reagir,
que há tarefas a cumprir,
o atemporal sussurra baixinho
que devo dormir, deixar o corpo e fluir
à procura do que o infinito
tem para me dar a conhecer,
a procurar…
Mas hoje não posso.
É o hoje. O aqui e o agora.
o terreno, a vida visível,
as tarefas, o tempo, o espaço…

Sei que me perco. Mas é urgente que desperte.
Outros dias virão,
outros letargos surgirão…
E é com pena e um laivo de tristeza que dispo
e me despeço
destas asas que me queriam levar a voar…

De Maria La-Salete Sá (07/10/1990  16:20h)



GRITOS DE SILÊNCIO




As palavras deste silêncio que me sufoca
gritam dores, espasmam tormentas
fechadas como estão no parar do tempo…
As palavras deste silêncio
encerradas numa boca de lábios selados
atropelam-se e maltratam-se
no ímpeto de largar em desfilada
tal corcel fogoso e bravio
à procura do prado universal
onde se espraiar.
As palavras gritantes deste silêncio
martelam meu cérebro dormente
prestes a explodir
à força da sua voz
tão silenciada de tão contida…

De Maria La-Salete Sá (20/04/1990   23:00h)


CONVULSIVA EXPLOSÃO



Explode meu ser num frémito imenso
que não consigo reter
as convulsões deste sentimento…
Minhas entranhas rebentam
na ânsia convulsionada deste sufoco
feita de revolta, de dor…
Não é tédio nem desamor,
é o ser eu sem que o possa ser,
é o reter bem no fundo deste poço que sou eu
toda a fúria de querer viver
sem o poder.
É o calar sem o querer,
é o morrer sem pestanejar,
é a guerra do meu íntimo
a querer explodir
sem me deixar calar…

Explode meu íntimo no frémito imenso
deste constante calar do pensamento.

De Maria La-Salete Sá (22/04/1989   00:11h)



PERCURSOS…



Eu fui obra traçada do destino
e sou a linha constante da vida.
Fui escrava, algures, em tempo indeterminado,
açoitada pelas mãos e ordens do senhor poderoso.
Fui homem vil, duma tirania incontestável,
talvez lutando em prol da fé na Guerra Santa.
Combati homens como se foram feras,
tiranizei e reduzi a répteis
pessoas de bom coração.
Fui leal servidor, fui justiça e tirania,
fui homem e mulher
em tempos e locais ilimitados e inexplícitos.
Hoje sou mulher sem medo de fantasmas nem de dragões
a cumprir este carma atribulado
a que me impus.

De  Maria La-Salete Sá (12/12/1988)