terça-feira, 17 de dezembro de 2013

ARJUNA E SEUS/MEUS MEDOS


 

 

Deus deu-me asas para poder voar.

Olhei-as bem, abri-as...

Assustada tentei um voo curto.

Não quero partir minhas asas

(como se estas asas fossem minhas!).

Detenho-me de novo nelas,

nas cores do arco-íris de que são feitas,

absorvo toda esta beleza e quero projetá-la no espaço infinito...

E nasce o medo, o pavor.

O medo de não saber voar, o medo de as partir...

Então Deus ordena-me que voe,

para isso e por isso é que tenho asas...

Continua o medo. Cada vez mais medo...

Quantos sonhos terei que abandonar,

quantos mundos para deixar,

quantas ilusões a perder...?

Arrisco um outro voo, um bocadinho mais longo

e um som intenso  penetra-me os ouvidos,

um brilho de luz ofusca-me os sentidos...

Miríades de pássaros multicores

cortam o universo a meu lado,

e mesmo assim tenho medo.

Desta vez Deus deu-me um arco e milhares de flechas.

Não me disse para quê.

mas ouvi o meu grito angustiado

a dar-me a resposta.

Tenho que voar, continuar a voar,

lutar comigo, destruir-me,

- eu que sou Arjuna no campo de batalha -

Agora começo a compreender,

a ver que o meu medo

foi (talvez seja ainda) o medo de todos esses pássaros,

de todos esses Arjunas

que comigo cortam os céus.

 

Agora compreendo

porque é que Deus me deu asas.

 

De Maria La-Salete Sá (Seminário de yoga- tema Bhagavad Gita,  Junho de 1991)

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

HOMEM, PARA…



Homem! Para! Ouve!
Eu sei que tens pouco tempo!
É certo1 nem há tempo sequer para pensar,
Mas, por um só segundo,
Fecha os olhos à vida! Entra dentro de ti,
Vê o que és e o que te espera
(Ou o que tu esperas)...
Talvez – quem sabe?! – Talvez...
Se morreres nesses escassos momentos,
Se olhares as tuas limitações...
Talvez... talvez digas como eu:
- Para, louca! – e até pares mesmo!


De Maria La-Salete Sá (30-12-1972)

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

FANTASIA


Ir do hoje ao amanhã,
Do amanhã ao ontem

Sem limites de tempo e espaço

Quem me dera!

Poder reencontrar-me no infinito,

Fazer da eternidade o momento

E deixar que o pensamento

Não se perdesse na quimera…!

Quem me dera

Sair deste compasso de espera!


De Maria La-Salete Sá (08/11/199)

 

À MINHA AMIGA


Foi um dia de doação,
entrei de frente na partilha,
no Amor, na Comunhão.

Minha amiga sofria,

minha amiga não queria,

não queria…

Ela não queria o sofrer,

urgia partilhar a dor

e temia o intrometer

Como se a dádiva
fosse intromissão,

a dádiva é Amor,

apenas Amor,

amor sem solidão.

E minha amiga falou,
soltou a mágoa dolorida,

abriu de par em par

as portas do coração…

Por elas saíram mágoas,
dores, sufocos, tormentas,

por elas entrou a paz,

por elas entrou a luz

que jamais abandonou…

Minha amiga partiu…
serena…

em carruagem de Amor

regressou ao lar,

à vida,

na outra dimensão…

De Maria La-Salete Sá (01/05/08)

sábado, 23 de novembro de 2013

OPRESSÃO

Algo me oprime
e torna tensa
sem que saiba o que é.
Sinto-me asfixiar
de angústia
e não consigo descobrir
o seu provir.
Preciso de interiorizar,
olhar bem fundo de mim
e descobrir os meus
quês e porquês.


De Maria La-Salete Sá  (10/12/1990)

FEITICEIRA-ILUSIONISTA


 

 
 

Já fui poeta da dor, do sofrimento, do desamor,

Já fui poeta do lamento, da tristeza, do invento,

Já fui poeta da mentira,

Já fui poeta da verdade,

Já fui poeta da contradição, da ironia, da negação

Hoje

Sou poeta do amor, do sorriso, da alegria,

Sou poeta do sonho, da vida, da fantasia,

Sou poeta da esperança,

Sou poeta da harmonia,

Sou artista, arquiteta, desenhista.

Hoje

Sou a feiticeira-ilusionista

Que escreve e desenha sorrisos,

Que pinta telas de alegria,

Com as cores da fantasia…

 

De Maria La-Salete Sá (22/11/13  19:38h)

 

 

A MINHA PLANTA


 

 
Poisei os olhos devagarinho nas folhas verdes da minha planta.

Ela retribuiu o meu carinho

através do seu olhar verde, cor da esperança.

Parecia querer dizer-me: «Obrigada pelo teu afeto».

Então sorri. Sorri para ela e para mim.

Ela vive. Eu vivo também.

- E não me venham dizer que a minha planta só vegeta! -

Se vissem como eu vi o seu sorriso, o seu olhar,

se entendessem o grito de socorro nas folhas tombadas

ou a voz de agradecimento

depois de uma refeição de água límpida,

se vissem como as folhas se erguem , de mansinho, agradecidas...

Se vissem...

Se vissem como eu vejo,

se sentissem como eu sinto

a vida que corre na minha planta,

a alegria que ela transmite,

nunca... nunca  nem ninguém

diria que a minha planta

somente vegeta.

 

De Maria La-Salete Sá