quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

GOSTAVA DE TER ASAS E VOAR


Poder sentar-me na lua,

Até às estrelas subir

Saltar e brincar nas nuvens,

Ser gota de chuva a sorrir…

 

Gostava tanto de ser

Borboleta por um dia,

Mariposa multicor

No jardim da alegria!

 

Mas o que mesmo gostava

Era de ter asas e voar

Poder ir com o pensamento

Onde ele me quiser levar.

 

E meu pensamento tem asas,

Logo, não me posso queixar,

Se eu sou o pensamento

Tenho asas para voar!

 

De Maria La-Salete Sá

 

28/10/2012

 

DEIXEM QUE...


Deixem que me reparta entre carícias e abraços,

que os distribua por inteiro 

tocando corações e almas sedentos de afeto.

Deixem que me dilua em ventos ou brisas,

que transporte sementes  de paz e de amor,

que espalhe e semeie ternuras.

Deixem que seja rio de águas dançantes,

ou mar de vagas ondulantes

salpico de sal com sabor a maresia.

Deixem que me transforme em sereia,

que salte e brinque na areia,

que seja obreira de fantasia,

que recrie e viva a magia

de ser eternamente criança...

 

Deixem que me reparta entre carícias e abraços,

que me dilua em ventos ou brisas,

que seja rio de águas dançantes,

mar de vagas ondulantes,

que me transforme em sereia...

 

Deixem que vos envolva e embale

num embalo de esperança

neste jeito de criança

sempre a sonhar,

sempre a recriar...

 

Deixem-me amar

                        e reinventar o amor!

 

De Maria La-Salete Sá

AQUELE SOLAR, AQUELE CASEBRE


Naquele solar cheio de luz

Onde velas de mil e uma cores

Enchem todos os recantos

Há alegria!

Num canto, tão rico e iluminado,

O presépio parece de sonho,

De contos de fadas... Que lindo!

 

Nesse solar cheio de luz

Onde velas de mil e uma cores

Enchem todos os recantos

Há alegria...

Mas nesse solar...ninguém vai à janela,

Ninguém vê o casebre do fundo da rua...

O Natal é só isso...Folia!

 

E quando no solar

À ceia se come do bom e do melhor

No casebre faz-se a festa

Com as poucas couves e batatas

Guardadas para esse dia...

Há ainda um naco de pão...

As crianças olham-no e pensam

Quem poderá comer o último bocado...

E o pobre pai lá o reparte

“Comam todos...não há mais”

 

Mas... enquanto nesse solar cheio de luz

Onde velas de mil e uma cores

Enchem todos os recantos

Há alegria, uma alegria efémera, fictícia

E que acabará de seguida,

 

No casebre onde o frio entra impiedoso

Há a mensagem de Paz e Amor

Que o Menino Deus traz ao mundo

Em cada Natal, em cada ano...

 

E nesse casebre

Não há luz de velas multicores,

Não há presépio rico,

Mas há a Luz Branca e Pura

No presépio vivo da família.

 

De  Maria La-Salete Sá  (29-12-72)

 

AO ENCONTRO DO AMOR


Montada na garupa do vento

vou ao teu encontro, amor,

vestida no escarlate da paixão,

em roupas leves e transparentes…

na mão levo o lírio da paz,

na boca um beijo de mel,

nos olhos um mar de desejos…

 

vou a o teu encontro, amor,

 

nos braços a leveza da espuma,

no corpo a languidez da entrega,

na alma um poço de felicidade…

 

vou ao teu encontro, amor,

 

abraçar-te forte ou de mansinho,

sentir o teu contacto quente e cálido

que embarga a voz de emoção…

 

vou ao teu encontro, amor,

montada na garupa do vento…

 

De Maria La-Salete Sá (10/10/1984)

 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

ÉBRIA



Um copo! – Que líquido turvo este!
Não gosto dele! É amargo!
Mas vou bebê-lo!
Um gole! Outro! Mais outro ainda!
Assim! Horror! Sabe tão mal!
Que licor é este? Fel?!
Talvez! É tão ruim! Não gosto dele!
Mas... mais um copo!
E, de um trago, bebi-o todo!
Mais! É mal saboroso,
Mas quero mais!
Uma garrafa será melhor!
Riam-se! Riam-se de quem chora,
De quem canta amargurada
O efeito deste álcool amargo...
Bêbeda – dirão – Sim...
Ébria...
Ébria!... Ébria?! – foi o que disse?!...
Ah! Sim, é verdade!
Bebi muito! Do tal líquido escuro
E amargo...
Bebi demais do licor de sabor a fel...
Foram copos e copos,
Garrafas e garrafas de angústia...
Não sei como arrastar-me vida fora...
Caio... Choro... Canto amargamente a minha tristeza...
Mas não liguem...
Bebi demais...
Ébria...

De Maria La-Salete Sá

(28-12-1972)



FOGO DA VIDA



A noite que cai sobre a cidade adormecida,
a chuva que fustiga as janelas cerradas,
o silêncio que canta no vento arrogante
são o crepitar da fogueira da vida…
…serão talvez a força do amor dos deuses
(e não a ira como protagonizam os politeístas gregos).

E pela força deste amor que assim renasce
nova chama arde nos amantes desta cidade

Assim aconchegados na noite,
embalados pelo toque da chuva,
ao som do silêncio que produz ecos de prazer
estes amantes entrelaçados
em danças de sensualidade,
sendo homens e mulheres em fogueiras de paixão
são também frutos da natureza,
flores silvestres em polinização.

De Maria La-Salete Sá  (27/01/1988   00h 58m)

 ... serão talvez a força do amor dos deuses
(e não a ira como protagonizam os politeístas gregos). ... serão talvez a força do amor dos deuses
(e não a ira como protagonizam os politeístas gregos). ... serão talvez a força do amor dos deuses
(e não a ira como protagonizam os politeístas gregos).

E pela força deste amor que assim renasce
nova chama arde nos amantes desta cidade.

Assim aconchegados na noite,
embalados pelo toque da chuva,
ao som do silêncio que produz ecos de prazer
estes amantes entrelaçados
em danças de sensualidade,
sendo homens e mulheres em fogueiras de paixão
são também frutos da natureza,
flores silvestres em polinização.


ARJUNA E SEUS/MEUS MEDOS


 

 

Deus deu-me asas para poder voar.

Olhei-as bem, abri-as...

Assustada tentei um voo curto.

Não quero partir minhas asas

(como se estas asas fossem minhas!).

Detenho-me de novo nelas,

nas cores do arco-íris de que são feitas,

absorvo toda esta beleza e quero projetá-la no espaço infinito...

E nasce o medo, o pavor.

O medo de não saber voar, o medo de as partir...

Então Deus ordena-me que voe,

para isso e por isso é que tenho asas...

Continua o medo. Cada vez mais medo...

Quantos sonhos terei que abandonar,

quantos mundos para deixar,

quantas ilusões a perder...?

Arrisco um outro voo, um bocadinho mais longo

e um som intenso  penetra-me os ouvidos,

um brilho de luz ofusca-me os sentidos...

Miríades de pássaros multicores

cortam o universo a meu lado,

e mesmo assim tenho medo.

Desta vez Deus deu-me um arco e milhares de flechas.

Não me disse para quê.

mas ouvi o meu grito angustiado

a dar-me a resposta.

Tenho que voar, continuar a voar,

lutar comigo, destruir-me,

- eu que sou Arjuna no campo de batalha -

Agora começo a compreender,

a ver que o meu medo

foi (talvez seja ainda) o medo de todos esses pássaros,

de todos esses Arjunas

que comigo cortam os céus.

 

Agora compreendo

porque é que Deus me deu asas.

 

De Maria La-Salete Sá (Seminário de yoga- tema Bhagavad Gita,  Junho de 1991)