domingo, 29 de setembro de 2013

FUGA DE MIM




Hoje o meu  espírito tem necessidade de evasão,
de procurar refúgio noutras galáxias,
noutros povos, noutros seres,
noutras civilizações.
Hoje quero progredir para o além mundo
ou para o prefácio desta existência.
Hoje quero fugir deste corpo,
deambular apenas presa pelo perispírito
e entrar no Cosmos,
no povoamento de seres informes
mas reais,
daqueles que são mais do que mais,
que são os próprios, os Eus,
como em espírito eu também sou Eu.
Quero deixar a Terra,
esvair-me de mim mesma,
deste ser material que sou,
deixar de ser matéria
e ser o nada,
porque este nada é o tudo.
Hoje quero ir além, ultrapassar limites e fronteiras,
fluir entre barreiras
e encontrar-te e contigo poder falar…

… contigo que és Eu.


De Maria La-Salete Sá (21/04/1989  00:01h)






Porque vives eternamente camuflado
de bem casado
e bom cidadão?
Porque te temes mais do que temes o que julgas temer?
Porque te consideras superpotente,
se essa superpotência
não passa de uma alienação de ti mesmo?
Porquê tanto pavor em enfrentares a tua realidade?
Não vês que estás a fragmentar a tua personalidade?
É altura de te cimentares,
de criares as tuas próprias estruturas
e os teus alicerces,
é hora de te olhares e de te reconheceres,
de te interrogares para saber
e compreender que já é tempo de crescer.

Se olhares bem – e de olhar bem atento –
para dentro de ti,
para a tua essência, para a tua alma,
poderás descobrir em quantos fragmentos te tornaste,
descobrir que o teu embrião não cresceu por igual.

Vê o “tu” que está adulto e o “tu” que se recusa a crescer,
Vê!


De Maria La-Salete Sá ( setembro de 1988)




TEMPESTADE D’ALMA



Se a raiva que se instalou neste espírito
fosse passível de incendiar-se
com ela explodiria o universo,
tal guerra das estrelas em colisão.

Se esta fúria que surgiu não sei de onde
conseguisse soprar a sua força,
tornados, tsunamis e ciclones
sacudiriam o planeta.

Mas esta fúria, esta raiva,
esta revolta consumada
apenas eclodem no meu íntimo
e toda eu sou…
…um complexo de galáxias em explosão.

De Maria La-Salete Sá ( agosto de 1989)


GOSTO ACRE



Hoje a vida tem um gosto acre
E um cheiro nauseabundo.
São ecos vindos doutros mundos
Que me contrariam a razão,
são subtilezas que se sentem e vivem
mas que não podem ser provadas,
são certezas
de certezas improvadas…

Hoje a vida tem um gosto acre
que me chega ao coração,
um cheiro nauseabundo
que reclama interiorização,
mas o meu consciente cansado
quer fugir ao designado,
quer dormir, ficar parado
na quietude da não-aceitação.

Hoje estou só. Desolada e incompreendida,
queria ser só matéria vegetativa
sem pensar no meu “eu infinito”.
Debato-me com o espírito
que reclama a compreensão
mas eu, a mulher dos sentidos
queria abolir (por momentos) o dever
da caridade e abnegação…

De Maria La-Salete Sá (18/02/1989  00:40h)



QUE DESABE…




Que a atmosfera pesada e quente
desta noite de verão,
prestes a abrir-se sobre mim,
desabe em todo o universo.
Queria sentir-me arrancada deste sufoco,
acossada pelo uivo da tempestade furiosa
e alagada pela chuva que não vem…
Queria…
Queria que esta atmosfera pesada e quente
ribombe e rebente sobre mim a sua fúria…

Talvez, então, eu também consiga
atirar para o mundo
o temporal que trago cá dentro.

De Maria La-Salete Sá (22/07/1990  01:31h)


INADAPTADA



Parada no tempo sem tempo em que estou
questiono os porquês desta razão
sem resposta racional...
Não há quês nem senãos,
apenas o desejo da projeção
do meu espírito etéreo
sem barreiras, sem fronteiras, sem parâmetros dimensionais.
Agora sou maior do que o espaço universal
ou mais ínfima do que o infinitésimo do mínimo.
Sou o tudo e sou o nada.
Contraponho-me e contradigo-me
Na correria louca em busca do sonho…
Ele lá… eu aqui.
De nada me serve, pois, a grandeza ultra dimensional
nem a pequenez infinitesimal…
Ser o tudo ou ser o nada – razão irracional -,
utopia-contradição, vontade anulada,
(o tudo ou o nada??!...)
Não! Cercam- se-me as fileiras
dos meus cavalos alados,
grito-me bem de dentro
que apenas sou, sem tudo, sem nada,
mulher incongruente, mas consciente
duma vida inadaptada.


De Maria La-Salete Sá (22/07/1990  01:25h)

PIEDOSA MENTIRA



Pressinto que me afundo de novo em incertezas...
Começa a desmoronar-se a estrutura do meu pedestal,
do pedestal onde me ergui
alta e inflexível,
dura que nem uma rocha...

O cimento armado
em que me alicercei
começa a diluir-se
no paradoxo deste sentir incongruente...
E, a pouco e pouco,
sinto-me reduzida a nada
no mundo das emoções.

Já não sou a mulher super-segura de si mesma,
a auto-suficiente,
sou a criança carente
perdida no abismo
em busca duma mão amiga,
dum carinho,dum afago...
Sou a fragilizada
na vulnerabilidade inconstante do ser...

A solidão dum mundo inteiro
pesa sobre os meus ombros
e uma asfixia crescente
desperta-me cada vez mais
a vontade de gritar contra o silêncio...

E ri-se de mim a lua! Lá fora... pequena e insignificante
no seu quarto crescente...,
dentes abertos  num sorriso de desdém
como quem apregoa
a sua influência cíclica na vida de alguém!
Hoje esse alguém sou eu.
Sou eu que caí do astro-rei,
caí mais baixo do que o satélite mais ínfimo...
nem meteoro fui, apenas em areia me tornei...
...fina e frágil...

Mas não pposso  permanecer assim!
Com areia (e cimento) se constroem torres e castelos,
Se erguem fortalezas,
Com areia (e cimento)
Se fabricam cidades, se fazem mundos.

Eu hei de voltar a crescer,
voltar a vencer,
voltar a ser!

Talvez amanhã entre de novo em derrocada,
mas preciso de força para erguer-me AGORA...
Cimento e lágrimas darão consistência de rocha
à areia que hoje sou.
Urge reconstruir-me, capacitar-me e convencer-me
que as negações às emoções primárias
não são mais do que idealizações
de pessoas fracas... insignificantes...

E nesta insignificância de mentira piedosa
reestruturo a fortificação,
restauro a fortaleza
do meu castelo de cristal...

... e enquanto não surgir outro temporal/emocional
Ficar-me-ei no meu pedestal.


De Maria La-Salete Sá


Maio de 1990