quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O EREMITÃO

 


 

Vivi nas florestas da Bretanha, no decorrer da Idade Média. Era um homem de estatura média, corpulento e bonacheirão, sempre em boa convivência com o povo, um povo oprimido pela miséria e pelos impostos.

Enquanto rapazito deixava, vezes sem conta, os meus pais preocupados, sobretudo a minha mãe, uma mulher bondosa, mas taciturna, devido às agruras da vida. Não sei se tinha irmãos ou não, mas eu era uma criança solitária. Trabalhava, sempre que podia, a arranjar lenha ou caça para casa, mas, quando precisava de me encontrar, vagueava sozinho pela floresta, geralmente ladeira abaixo até me encontrar debaixo do carvalho grande, onde me sentava na pedra sobranceira ao riacho. Não dispensava o velho chapéu que me protegia do frio e da chuva. Andava sempre descalço, pois, calçado era um luxo a que não podia chegar.

A minha casa de infância era um casebre pobre, construído de pedras sobrepostas, sem soalho nem pedra, assente em terra batida. O mobiliário era composto por uma tosca mesa de madeira, ao centro e dois bancos compridos um de r cada lado da mesa e mais uns troncos ao lado da lareira. Para dormir havia duas enxergas, uma para os meus pais e outra para mim, talvez também para os meus irmãos, se os tinha. Mas devo ter sido filho único, ou os meus irmãos morreram cedo, pois que, depois da morte dos meus pais, fui o único a habitar a casa.

Desde esse tempo de criança me interrogava sobre o porquê de tanta desigualdade social, interrogações que me conduziram à revolta, revolta essa que procurava atenuar nas minhas fugas para junto do carvalho. Esse foi sempre o meu confidente. Aliás, sempre o considerei o mais sábio dos seres, pois que aguentava firme e de pé todos os contratempos da vida. E foi ele, sim, ele quem me incentivou a manter sempre a coragem e o amor. No entanto, apesar de não ser um garoto taciturno, muito pelo contrário, quando em grupo, brincava, era até espirituoso de quando em vez, mas, ao mesmo tempo, bastante reservado. Talvez por isso, porque nem sempre conseguia dizer ou manifestar os meus anseios mais profundos, vivi sempre uma vida de celibatário. Mas… não só…O meu coração rendeu-se por completo, no auge da minha juventude, por uma donzela que só poderia ser minha em sonhos…

Quando, pela primeira vez, a vi passar naquela carruagem, acompanhada por duas criadas e alguns guardas, fiquei escondido atrás das árvores a olhar essa deusa de cabelos bem tratados, que adornavam seu rosto, debaixo do véu que lhe cobria a cabeça… Nunca mais esqueci o vermelho da capa que lhe tapava os ombros, nem a brancura sedosa da pele a contrastar com o negro dos caracóis que teimavam em tapar-lhe os olhos, devido à aragem que corria. Ainda a vi mais algumas vezes, mas não podia sequer pensar nela, o que me transformou num ser ainda mais solitário. Nem as moçoilas da aldeia olhavam para mim, ou eu não reparava nelas.

E os anos foram passando. Já adulto cultivava uma pequena parcela ao lado da casa, donde extraía bom vinho, caçava e era lenhador.

A minha casa pouco mudou, apenas tinha aquilo a que se pode chamar uma adega, onde esmagava as uvas e armazenava os alimentos durante o inverno.

Usava, sobre as calças e camisa, um albernoz grosso e castanho e um chapéu velho e coçado.

Juntava-me, quando necessário, aos restantes homens da aldeia para lutar a favor dos oprimidos. Também me tornei ladrão por justa causa. Sempre que podíamos saqueávamos os cobradores de impostos e redistribuíamos os teres pelas famílias necessitadas. Algumas vezes fui preso, mas sempre havia amigos que, com as suas artimanhas, me tiravam da cela, tanto quanto eu fazia por eles, sempre que fosse o caso e eu pudesse.

Um dia normal na minha vida era poder acordar logo que o galo cantasse, comer uma côdea de pão e beber um trago de vinho, partir para a floresta, fosse como lenhador ou caçador e estar atento a qualquer movimento suspeito que, quando surgia, .fazia movimentar todos os homens. Se fosse caso para isso, fazia-se uma emboscada e apanhávamos os homens, cobradores de impostos, caso contrário, continuávamos nos nossos trabalhos. Se a caça era abundante a refeição era comunitária, se não era, cda um governava-se com o que podia. Mas, no final do dia, ainda sobrava tempo para tratar do meu cantinho de cultivo. Mas todos os dias tinha que me deslocar ao riacho, visitar o meu conselheiro, falar um bocadinho com ele e levar água para casa.

Durante a semana todos trabalhava, mas ao domingo, não. Era dia de descanso.

Aos domingos, por vezes, faziam-se festanças com danças e manjares, mas também se aproveitava esse dia para treinar luta e defesa.

Ao meio-dia, todos os dias, se parava um bocado para agradecer e orar a Deus. Ao domingo este ritual era mais longo. Toda a gente se juntava em círculo e, de mãos dadas, andavam no sentido dos ponteiros do relógio, entoavam-se preces e cânticos de proteção, de agradecimento e de esperança. Apesar de não haver propriamente uma igreja, éramos uma comunidade com um sentido religioso muito próprio, assente no cristianismo, mas com uma mistura de magia celta. O facto de fazermos um círculo e termos como hora o meio-dia solar eram reminiscências dos Cavaleiros da Távola Redonda, rituais celtas.

A legislação que havia não sei bem qual era, pois criámos na comunidade as nossas próprias normas de conduta: sermos todos irmãos e “um por todos, todos por um”.

Mas lembro com um misto de ternura e nostalgia, as grandes tempestades e as grandes trovoadas. Era agradável e, ao mesmo tempo, assustador, ver e sentir o céu a tornar-se negro, o vento a soprar e a aumentar de intensidade, ver as primeiras chuvas que traziam um odor caraterístico e único. Eu deliciava-me com este tempo. Era como se tudo isso fosse um lavar do que, em todos nós, estava a obstruir os nossos sentimentos, as nossas ideias… Quando tal acontecia, e sempre que podia, ficava a olhar para o céu, sentindo a chuva a cair e a escorrer pelo rosto. Depois seguia, debaixo do temporal, até ao meu refúgio, o carvalho, sem sequer me preocupar com a possibilidade de ser atingido por um raio. Geralmente ficava ali, assim, até que a chuva abrandasse ou passasse, mas… se não abrandava nem passava, ao fim de algum tempo, voltava para casa, completamente encharcado, a tiritar de frio, mas com uma sensação de leveza tão grande que me fazia sentir de novo criança, sentir a pureza de ser criança.

Então, já em casa, tirava as roupas molhadas que secava junto da fogueira, na qual também me aquecia e, se era tarde, comia e ia dormir a noite, se era ainda cedo, ficava um bocado a descansar junto ao fogo para depois retomar o trabalho que ficara por fazer

Sempre me dei bem com toda a gente da comunidade, que considerei sempre como família. Éramos totalmente solidários nas alegrias e nas tristezas.

Morri velho, de febres, talvez causadas por pneumonia, pois que fiquei muito debilitado logo depois de um temporal dos que me convidavam a sair para os receber e abraçar.

 

Maria La-Salete Sá 


sábado, 29 de agosto de 2026

NO DECORRER DA VIDA

 


 

 

No decorrer

da vida

tudo pode acontecer.

 

Seja lindo,

seja feio,

seja doce,

seja amago,

prazeroso

ou desconfortante…

 

Tudo chega para ser

recebido,

sentido e vivido

como lição a aprender.

 

Não há nada perdido

por mais que se deixe ficar…

 

O fruto,

mesmo esquecido,

tem em si a semente

capaz de germinar…

iniciar novo ciclo de vida,

crescer,

continuar,,,

 

No decorrer

da vida

tudo pode acontecer…

 

… porque a vida

é troca divina

entre ser e não ser,

entre nascer e morrer

num eterno renascer,

 

 

.28-08-2026, Aipal (9.55)

 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

sábado, 4 de julho de 2026

BOM DIA

 

BOM DIA

Nos confins do pensamento

uma ideia brilhante se fez presente.

 

Rodopiando feliz, audaz,

plena de alegria,

de fantasia,

de positivismo,

se apresentou!

 

Seu brilho

reflete paz, esperança

e afasta toda e qualquer dor

de pesada nostalgia…

 

E a ideia se faz vida,

cresce

sai do pensamento

e voa.

Pousando aqui, pousando ali, pousando além,

continua …

 

…e vai deixando rastos brilhantes de amor,

entoando canções de paz,

hinos de harmonia…

 

… e a todos presenteia com um sorriso

um doce e terno abraço

e um sincero desejo de…

 

… BOM DIA!

Maria La-Salete Sá (Aipal, 5 de julho, 9h17m)


 

 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

BAILADO POÉTICO

 

A poesia

é um bailado de palavras

ao ritmo musical das emoções.

 

Um bailado que se faz em passos

ora corridos

ora pausados,

de acordo

com o teor

das sensações.

 

Maria La-Salete Sá (28/05/2026) 

(imagem da net)


QUERO

 


QUERO


 

Quero escrever um poema

com as cores da hora mágica

e pintar um quadro de sonho

com as letras do amor.

 

Maria La-Salete Sá (10/02/2026)

DE BÚSSULA NA MÃO

 



 

A que fui já não sou,

a que sou não é a que SOU…

mas esta de hoje,

de bússola na mão,

segue andando…

            

E eu sei.

 

Sei quem sou

e também sei que

não estou em quem SOU.

 

Neste tempo

sou viajante,

deambulante

a calcorrear os caminhos

que me levam a quem SOU!...

 

E seguirei a estrada

que a vida me traçou…

até chegar

a quem SOU

 

Maria La-Salete Sá (10/03/2026)