Vivi nas florestas da Bretanha, no
decorrer da Idade Média. Era um homem de estatura média, corpulento e
bonacheirão, sempre em boa convivência com o povo, um povo oprimido pela
miséria e pelos impostos.
Enquanto rapazito deixava, vezes sem
conta, os meus pais preocupados, sobretudo a minha mãe, uma mulher bondosa, mas
taciturna, devido às agruras da vida. Não sei se tinha irmãos ou não, mas eu
era uma criança solitária. Trabalhava, sempre que podia, a arranjar lenha ou
caça para casa, mas, quando precisava de me encontrar, vagueava sozinho pela
floresta, geralmente ladeira abaixo até me encontrar debaixo do carvalho
grande, onde me sentava na pedra sobranceira ao riacho. Não dispensava o velho
chapéu que me protegia do frio e da chuva. Andava sempre descalço, pois,
calçado era um luxo a que não podia chegar.
A minha casa de infância era um casebre
pobre, construído de pedras sobrepostas, sem soalho nem pedra, assente em terra
batida. O mobiliário era composto por uma tosca mesa de madeira, ao centro e
dois bancos compridos um de r cada lado da mesa e mais uns troncos ao lado da
lareira. Para dormir havia duas enxergas, uma para os meus pais e outra para
mim, talvez também para os meus irmãos, se os tinha. Mas devo ter sido filho
único, ou os meus irmãos morreram cedo, pois que, depois da morte dos meus
pais, fui o único a habitar a casa.
Desde esse tempo de criança me
interrogava sobre o porquê de tanta desigualdade social, interrogações que me
conduziram à revolta, revolta essa que procurava atenuar nas minhas fugas para
junto do carvalho. Esse foi sempre o meu confidente. Aliás, sempre o considerei
o mais sábio dos seres, pois que aguentava firme e de pé todos os contratempos
da vida. E foi ele, sim, ele quem me incentivou a manter sempre a coragem e o
amor. No entanto, apesar de não ser um garoto taciturno, muito pelo contrário,
quando em grupo, brincava, era até espirituoso de quando em vez, mas, ao mesmo
tempo, bastante reservado. Talvez por isso, porque nem sempre conseguia dizer
ou manifestar os meus anseios mais profundos, vivi sempre uma vida de
celibatário. Mas… não só…O meu coração rendeu-se por completo, no auge da minha
juventude, por uma donzela que só poderia ser minha em sonhos…
Quando, pela primeira vez, a vi passar
naquela carruagem, acompanhada por duas criadas e alguns guardas, fiquei
escondido atrás das árvores a olhar essa deusa de cabelos bem tratados, que
adornavam seu rosto, debaixo do véu que lhe cobria a cabeça… Nunca mais esqueci
o vermelho da capa que lhe tapava os ombros, nem a brancura sedosa da pele a
contrastar com o negro dos caracóis que teimavam em tapar-lhe os olhos, devido
à aragem que corria. Ainda a vi mais algumas vezes, mas não podia sequer pensar
nela, o que me transformou num ser ainda mais solitário. Nem as moçoilas da
aldeia olhavam para mim, ou eu não reparava nelas.
E os anos foram passando. Já adulto
cultivava uma pequena parcela ao lado da casa, donde extraía bom vinho, caçava
e era lenhador.
A minha casa pouco mudou, apenas tinha
aquilo a que se pode chamar uma adega, onde esmagava as uvas e armazenava os
alimentos durante o inverno.
Usava, sobre as calças e camisa, um
albernoz grosso e castanho e um chapéu velho e coçado.
Juntava-me, quando necessário, aos
restantes homens da aldeia para lutar a favor dos oprimidos. Também me tornei
ladrão por justa causa. Sempre que podíamos saqueávamos os cobradores de
impostos e redistribuíamos os teres pelas famílias necessitadas. Algumas vezes
fui preso, mas sempre havia amigos que, com as suas artimanhas, me tiravam da
cela, tanto quanto eu fazia por eles, sempre que fosse o caso e eu pudesse.
Um dia normal na minha vida era poder
acordar logo que o galo cantasse, comer uma côdea de pão e beber um trago de
vinho, partir para a floresta, fosse como lenhador ou caçador e estar atento a
qualquer movimento suspeito que, quando surgia, .fazia movimentar todos os
homens. Se fosse caso para isso, fazia-se uma emboscada e apanhávamos os
homens, cobradores de impostos, caso contrário, continuávamos nos nossos trabalhos.
Se a caça era abundante a refeição era comunitária, se não era, cda um
governava-se com o que podia. Mas, no final do dia, ainda sobrava tempo para
tratar do meu cantinho de cultivo. Mas todos os dias tinha que me deslocar ao
riacho, visitar o meu conselheiro, falar um bocadinho com ele e levar água para
casa.
Durante a semana todos trabalhava, mas
ao domingo, não. Era dia de descanso.
Aos domingos, por vezes, faziam-se
festanças com danças e manjares, mas também se aproveitava esse dia para treinar
luta e defesa.
Ao meio-dia, todos os dias, se parava um
bocado para agradecer e orar a Deus. Ao domingo este ritual era mais longo.
Toda a gente se juntava em círculo e, de mãos dadas, andavam no sentido dos
ponteiros do relógio, entoavam-se preces e cânticos de proteção, de
agradecimento e de esperança. Apesar de não haver propriamente uma igreja,
éramos uma comunidade com um sentido religioso muito próprio, assente no
cristianismo, mas com uma mistura de magia celta. O facto de fazermos um
círculo e termos como hora o meio-dia solar eram reminiscências dos Cavaleiros
da Távola Redonda, rituais celtas.
A legislação que havia não sei bem qual
era, pois criámos na comunidade as nossas próprias normas de conduta: sermos
todos irmãos e “um por todos, todos por um”.
Mas lembro com um misto de ternura e
nostalgia, as grandes tempestades e as grandes trovoadas. Era agradável e, ao
mesmo tempo, assustador, ver e sentir o céu a tornar-se negro, o vento a soprar
e a aumentar de intensidade, ver as primeiras chuvas que traziam um odor
caraterístico e único. Eu deliciava-me com este tempo. Era como se tudo isso
fosse um lavar do que, em todos nós, estava a obstruir os nossos sentimentos,
as nossas ideias… Quando tal acontecia, e sempre que podia, ficava a olhar para
o céu, sentindo a chuva a cair e a escorrer pelo rosto. Depois seguia, debaixo
do temporal, até ao meu refúgio, o carvalho, sem sequer me preocupar com a
possibilidade de ser atingido por um raio. Geralmente ficava ali, assim, até
que a chuva abrandasse ou passasse, mas… se não abrandava nem passava, ao fim
de algum tempo, voltava para casa, completamente encharcado, a tiritar de frio,
mas com uma sensação de leveza tão grande que me fazia sentir de novo criança,
sentir a pureza de ser criança.
Então, já em casa, tirava as roupas
molhadas que secava junto da fogueira, na qual também me aquecia e, se era
tarde, comia e ia dormir a noite, se era ainda cedo, ficava um bocado a
descansar junto ao fogo para depois retomar o trabalho que ficara por fazer
Sempre me dei bem com toda a gente da
comunidade, que considerei sempre como família. Éramos totalmente solidários
nas alegrias e nas tristezas.
Morri velho, de febres, talvez causadas
por pneumonia, pois que fiquei muito debilitado logo depois de um temporal dos
que me convidavam a sair para os receber e abraçar.
Maria La-Salete Sá